A dívida simbólica e os maus pagadores

 

Resenha de Leandro de Lajonquière, Infância e Ilusão (Psico)Pedagógica. Escritos de

Psicanálise e Educação, Rio de Janeiro, Vozes, 1999, 204 p.

 


 

No país da psicanálise as coisas são e não são exatamente o que parecem ser. Embora faça parte do nosso planeta, o seu continente (o inconsciente) detona fronteiras que, muitas vezes, preferiríamos bem demarcadas. Se nosso narcisismo as desfaz, confundindo o eu e o outro (a criança e o adulto, p. ex.), ele também as constrói através das pequenas diferenças.

 

Nesse país em que a cultura é encarnada, quer dizer, em que ela se apresenta na carne de um outro, a criança já nasce engatada num processo cuja formação começou além, no inconsciente dos seus pais. E é assim como um canibal, incorporando pedaços dos outros cujos fantasmas ele próprio desperta, que vai se formando o ser psicanalítico. Mas o outro é também um alimento de difícil digestão. De modo que temos que multiplicar mecanismos de defesa que nos ajudem a degluti-lo.

 

Talvez essa não seja uma característica desprezível da educação que, expondo de modo tão desavergonhado a primazia originária do outro, humilha nosso narcisismo. Não é esse despudor em mostrar que o outro é mais determinante naquilo que fazemos ou deixamos de fazer do que desejaria o nosso ideal de autonomia, que a torna o alvo de ácidas críticas? Seria isso suficiente para ressaltar a complexidade da educação no novo mundo conquistado por Freud?

 

Em sua versão psicanalítica a educação difere daquela da pedagogia. A relação da criança com o adulto é disso que se trata na educação é essencialmente da ordem de uma iniciação. Dimensão iniciática ou sedutora da educação que a naturalização da criança ofusca, encerrando-a nos limites do seu ser biológico. Nessa clausura situa-se a crítica de Leandro de Lajonquière no seu Infância e Ilusão (Psico)Pedagógica. Escritos de Psicanálise e Educação, valorizando a face de autoridade do educador.

 

De qualquer maneira, na perspectiva da psicanálise a escola surge com outra função que não a de socializar uma natureza individual. Socializada a criança já era e Ariès mostrou-o há tempos. O que a escola fez, e faz muito bem, é instituir a criança inocente, a criança purificada pela razão que, a partir do século XIX, será o centro da família no ocidente. O eixo dessa educação moderna, idealizada por Rousseau, é a autonomia da criança, garantia de sua pureza, de sua impermeabilidade às ameaças que o adulto oferece ao seu ser natural.

 

Pois bem, essa autonomia é o ponto de partida de Leandro de Lajonquière nesse seu novo livro. Vendo na criança autônoma a renúncia do adulto ao ato educativo, essa oportuna reflexão sobre o cotidiano escolar busca repovoar um cenário que a imaginação teorizante dos adultos insiste em abandonar. Numa debandada que ameaça a escola e a educação.

 

Concordando com Freud e Mannoni que por diferentes motivos afirmaram que “a educação é impossível”, Lajonquière quer mostrar que, no Brasil e do modo “como é pensada ou sonhada”, a educação “acaba se tornando, de direito, um fato de difícil acontecimento”. Embora “não poucas vezes” ela também aconteça, apesar “das ilusões pedagógicas” (pp. 22/23), dentre as quais ele destaca a infância natural. Eis o alvo preferencial do autor, tema recorrente em todo o livro: o naturalismo da psicopedagogia, que concebe a criança como um “adulto em desenvolvimento” e tem como meta “educar para o futuro” através de “uma estimulação metódica”. Esse “fantasma (psico)pedagógico primordial”, que caracteriza a educação no Brasil atual, leva a uma “demissão do adulto da posição de educador”, já que tem medo de “estragar” a criança, “isto é, de agir contra a natureza” (p. 36).

 

Embora “toda e qualquer educação” implique transformar as crianças em adultos, diz o autor, a questão estaria na fonte desse processo que, para a psicanálise, é o outro humano, mas para a pedagogia é a natureza da criança. Não surpreende, assim, a cegueira dos adultos para a sua implicação nos problemas das crianças na escola os “problemas de aprendizagem”.

 

A educação tornou-se sinônimo de dificuldades de aprendizagem, “verdadeiras criaturas cujo pavonear ofusca os espíritos, ao ponto tal que não poucos já não podem pensar em outra coisa. Em nosso país, são numerosos os esforços governamentais, bem como as pesquisas acadêmicas que visam insistentemente domesticá-las, prevenir sua reprodução, descobrir o segredo de seu regime alimentar ou simplesmente torná-las criaturas em extinção” (p. 161).

 

Esse naturalismo é hegemônico no campo da educação, continua o autor, e produz uma grave conseqüência no cotidiano escolar: sua psicologização crescente, que transforma tudo em um problema individual a ser tratado por especialistas que roubaram as funções do “educador de outrora”. “Mas aquilo que preocupa é que essa espécie de delírio coletivo em torno dessa peste chamada fracasso escolar atenta contra a mesmíssima tradição escolar. De fato, no intuito de preveni-los se procede a desmontar o próprio dispositivo educativo. O ideal a ser atingido é a eliminação da própria escola” (p. 182).

 

Um fenômeno corriqueiro chamou sua atenção: a educação parece ter-se transformado num grande muro de lamentações. De fato, eis algo visível a olho nu por quem se dispuser a observar o cotidiano educacional, de mamando a caducando. E que dá margem a muitas interrogações. Podemos perguntar, por exemplo: o que impede os professores de reconhecerem o prazer que, manifestamente, obtêm com sua função educativa, ressaltando sempre e unicamente o aspecto doloroso e sacrificial do “sacerdócio”? Ou, com Lajonquière, podemos perguntar: o que as razões atribuídas à ineficácia suposta poderiam nos dizer sobre a criança e o adulto que a educa?

 

Freud qualifica como “fecundante” o interesse que sua disciplina poderia ter para as demais áreas do conhecimento e da atividade humana. Fiel ao espírito freudiano, o autor aproxima a psicanálise da educação fertilizando-a. O que não é pouca coisa, se considerarmos que as abordagens psicanalíticas, de uma maneira geral, começam e terminam na afirmação freudiana do impossível da educação. Indo além dessa sub-utilização da psicanálise, o autor a emprega como ferramenta para escavar o terreno educacional em cujo sub-solo agita-se o inconsciente. Mas ele não se esquece de olhar o solo. O que certamente permitirá ao professor reconhecer a sua escola nessa que lhe oferece. Uma escola que confunde a violência ou agressão urbana com a indisciplina escolar. Uma escola que terceiriza a educação, ou, como prefere dizer o autor, que faz proliferar instâncias pedagógicas demitindo o professor de sua posição de educador. Uma escola, enfim, na qual a educação, confundida com a pedagogia, ficou reduzida a uma técnica, tal como podemos ver já pelos títulos dados a alguns estudos de especialistas: “A avaliação psicopedagógica da aula comprida”, “Correlação entre os castigos parentais motivados pela bebedeira e a não-aprendizagem de crianças de 5 anos, seis meses e cinco dias” (p. 28).

 

O interesse educacional da psicanálise, para Freud, estaria, segundo Lajonquière, na indagação que promove. Nessa indagação, uma questão ocupa posição privilegiada: o que “a criança representa inconscientemente”? (p. 62). Com ela, o autor abre uma via de acesso à educação no continente psicanalítico, que a faz surgir em sua dimensão de “dívida simbólica”. Dessa maneira Lajonquière lança o professor num percurso tão sinuoso como aquele em que o Homem dos Ratos transitou, correndo atrás dos meios para quitar uma impagável dívida.

 

Por que alguém resolve ser professor? Para saldar uma dívida, responde o autor. O mestre ensina por dever. O aprendiz é movido por amor na sua tarefa. “Ensina-se por dever, aprende-se por amor” (p. 173).

 

Todo ato educativo, diz ele, porta consigo uma normatização, “uma cota de dever ser”. A educação filia o aprendiz a uma tradição comum, instalando-o numa condição de devedor. Cabe, pois, concluir “que educar não é nada mais que o corriqueiro pôr em ato de um processo de filiação ou sujeição a ideais, desejos, sistemas epistêmicos e dívidas”. O que é um outro modo de dizer que educar é endireitar. “Ora, pois, não devemos nos surpreender que a educação nos endireite na vida ou que seja graças a ela que venhamos a ter uma existência mais ou menos reta a respeito de certos ideais” (ibid.).

 

Dívida contraída na infância que os adultos à nossa volta não parecem muito inclinados a saldar. Já que, segundo afirma com toda razão o autor, o tamanho do fracasso escolar que assola o país é proporcional à extensão da renúncia à educação. Fato ainda mais preocupante quando pensamos que essa renúncia se estende à educação dos educadores. Esta prima por suprimir qualquer reflexão sobre os múltiplos sentidos que impregnam o ato de educar. Tomá-lo pelo ângulo da dívida é dar corpo a mais uma dessas fantasias inconscientes com as quais a humanidade, em sua história, veste a educação. E assim contribuir para fecundar um campo muito geralmente esterilizado pela pressa adaptativa.

 

No país da psicanálise a vida é diferente. Mas para cruzar suas fronteiras é preciso passar por barreiras sólidas e triunfar sobre resistências tão poderosas como o ideal de autonomia, a criança inocente, a mãe santificada, o conhecimento puro e o sacerdócio educacional. Resistências, ou obstáculos epistemológicos, que balizam o trajeto a seguir como as luzes que sinalizam os pousos e decolagens nas pistas de aviação. Como disse Bachelard, o inconsciente é um carcereiro obtuso: sempre ali vigiando seu segredo, acaba por mostrar onde ele se esconde.

 

Para além dos nossos desejos de autonomia e seduzidos que fomos por um outro adulto nas origens, impossível não vislumbrarmos os traços de um aprendiz que deseja tornar-se devedor. Se a educação o submete a um outro que encarna a autoridade, como quer Lajonquière, ela também o encanta com os poderes do sedutor. Em outros termos, é a caracterização da educação como sedução, simultaneamente domínio (poder) e iniciação (sensibilidade/sensualidade), que pode abraçar a relação da criança com o adulto em sua dupla face de submissão e prazer pela introdução/incorporação do outro.

 

 

Marcia Simões Corrêa Neder Bacha é doutora em Psicologia Clínica , coordenadora da linha de pesquisa Psicanálise e Cultura do Programa de Estudos Pós-graduados em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e autora de Psicanálise e Educação: Laços Refeitos (Casa do Psicólogo).

 

http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs26/marcia.htm

25/05/06