O projeto em desenvolvimento tem como tema a primeira e a Segunda teoria do aparelho psíquico de Freud, bem como os temas metapsicológicos posteriores à 1ª tópica que levaram às reformulações que culminaram na segunda tópica.
A obra de Freud não é estática. Sua experiência na prática clínica exigia que novos dados fossem acrescentados à teoria, além de que reformulações dentro da própria eram necessárias, pois sua lógica interna exigia novas soluções.
Existem vários pontos de vista acerca da evolução da teoria freudiana e suas versões sobre a questão das pulsões, do aparelho psíquico ou da sexualidade. Sobre o tema do aparelho psíquico, alguns autores, como Dalbiez, defendem a idéia de uma superioridade da segunda teoria do aparelho psíquico em relação a primeira tópica, pois aquela conteria a resolução de muitos problemas de difícil solução encontrados no primeiro modelo. Para outros, cada tópica teria sua vantagem: na primeira seria mais fácil visualizar uma possível explicação para eventos como os sonhos, a regressão e tudo o que se refere à memória; a segunda seria um melhor instrumento para a explicação dinâmica das psicopatologias. Já outros ainda (como Arlow e Brenner, 1964) consideram que a primeira e a segunda tópicas não seriam nem compatíveis, nem intercambiáveis entre si, e a solução seria o abandono da primeira tópica e a adoção da segunda.
Nesse sentido, tomou-se como ponto de partida a leitura feita por Monzani (1989) e suas propostas para se pensar a questão da continuidade e da ruptura dentro do pensamento freudiano. Monzani propõe uma solução intermediária entre a pura e simples continuidade e a separação da obra de Freud em diversos momentos inconciliáveis e irredutivelmente heterogêneos, pensando sua evolução como um processo contínuo de retomada e de reformulação de antigas questões, que seriam integradas num contexto teórico mais abrangente e num outro nível de abstração conceitual.
O objetivo deste trabalho é, então, procurar deslindar as razões que levaram às leituras discordantes sobre o sentido e a diferença entre os dois grandes modelos freudianos do aparelho psíquico, geralmente designados como Ia. e IIa. Tópicas. O material a ser utilizado na execução deste projeto é essencialmente bibliográfico e encontra-se discriminado abaixo, pelo menos num levantamento preliminar. Com relação às obras de Freud, será utilizada a edição argentina das obras completas de Freud da Amorrortu Editores. Os procedimentos consistirão basicamente nos seguintes:
1)Análise de texto e comentário dos trabalhos freudianos onde se elaboram os dois modelos principais do aparelho psíquico, a saber, o capítulo VII de A interpretação dos sonhos (1900) e O eu e o isso (1923).
2)Análise de texto e comentário dos principais trabalhos freudianos produzidos nesse intervalo: Para a introdução do narcisismo (1914), O inconsciente (1915), A repressão (1915), Complemento metapsicológico à teoria dos sonhos (1915) Três ensaios de teoria sexual (1905), As pulsões e seus destinos (1915), a XXVIa. das Conferências de Introdução à Psicanálise (Narcisismo e teoria da libido), Recordar, repetir, elaborar (1914), Além do princípio do prazer (1920) e Psicologia das massas e análise do eu (1921).
3) Leitura e discussão para posterior aproveitamento na análise dos textos freudianos de comentadores e analistas da obra de Freud que se ocupem particularmente com os problemas relativos à teoria do aparelho psíquico, destacando, num primeiro momento, os seguintes trabalhos: Freud, o movimento de um pensamento, de Luís R. Monzani, as Problemáticas, de Jean Laplanche e Conceitos psicanalíticos e a teoria estrutural, de J. A. Arlow e C. Brenner, além do clássico Da interpretação: ensaio sobre Freud, de Paul Ricoeur.
O tratamento dado às informações assim levantadas consistirá, basicamente, no cotejamento dos textos de Freud, depois de discutidos e analisados, de modo a pelo menos esboçar um campo interpretativo no qual situar o problema da significação metapsicológica da noção de aparelho psíquico nos diversos momentos de sua formulação.
Para o trabalho a ser apresentado no IX CIC, foi recortado um tema dentre as questões expostas acima. Foi escolhido o tema da construção do aparelho psíquico da primeira tópica, bem como o funcionamento do mesmo em relação à alucinação, ao sonho, à neurose, ao recalque, à censura, à atenção, ao pensamento, à consciência e à regressão.
Alguns autores colocam que o aparelho psíquico da primeira tópica não é inferior ao da segunda tópica, como pensam outros, havendo entre os dois modelos uma diferença quanto às questões tratadas. Assim, no aparelho psíquico da "Interpretação dos sonhos", a visualização de fenômenos como o recalque, o sonho e tudo o que se refere a memória é mais clara, enquanto que fenômenos como a dinâmica das neuroses seriam melhor visualizados no modelo de aparelho psíquico de "O eu e o isso".
Outros autores (como Arlow e Brenner, 1964) apontam inúmeras limitações ao modelo referente à primeira tópica e propõem o abandono desta em detrimento da superioridade da segunda tópica. Além das dificuldades apontadas por estes autores, procuraremos mostrar que questões essenciais da teoria, como os papéis da consciência e do eu, por exemplo, não são bem definidos, assim como a relação do aparelho com as dimensões somática e pulsional do funcionamento psíquico. Ainda ofereceriam problemas a questão de um inconsciente originário ou não recalcado, impensável com este modelo, porém essencial para a lógica da teoria freudiana; a incapacidade de visualizar no aparelho o sistema percepção-consciência como estando ligado à motricidade voluntária; a inadequação da estrutura linear do modelo para explicar a consciência do sonho; entre outros.
Assim, a construção do aparelho psíquico da tópica, seu funcionamento, bem como suas limitações serão objeto da exposição preparada para o presente Congresso.
http://www.propg.ufscar.br/publica/4jc/ixcic/UFSCar/HumSoc/351-bertanha.htm