Ruth Helena Pinto Cohen *[1]
O interesse sobre o tema fracasso escolar continua se impondo ao campo da psicanálise cobrando novas propostas para reflexão. Este fato deve-se à instigante e peculiar maneira de abordar o ato de pensar em sua ligação com o desejo, proposto pela descoberta freudiana e desenvolvida por Jacques Lacan, cujo compromisso com o pensamento freudiano, trouxe inúmeras conseqüências à transmissão do saber.
Partindo das instigações teóricas e clínicas encontradas no campo da psicanálise, o autor deste texto busca sustentar seus argumentos tendo, como causa precipitante, a experiência de muitos anos de trabalho com crianças nas áreas de psicomotricidade, psicologia, psicanálise e educação. Ao fazer algumas intervenções na função de supervisor dos núcleos de enriquecimento para crianças superdotadas no “Instituto Helena Antipoff” e no trabalho com psicomotricidade, verificou que o fracasso escolar aparecia tanto nas turmas de crianças deficientes mentais, quanto nos grupos de alunos superdotados. A inibição das funções intelectuais ocorria nesses dois grupos, e a relação professor-aluno se mostrava diretamente ligada a tais inibições. O aluno dito “especial” trazia questões próprias de sua subjetividade que, na relação transferencial com o professor, ficavam exacerbadas. Este, não tendo meios de suportar os conteúdos trazidos pelas crianças, encontrava-se diante de impasses, que dificultavam seu trabalho. Suportar o não-saber de seus alunos, tanto quanto um excessivo saber, se impunha como tarefa árdua ao professor.
Outro momento da práxis comprovava que era possível um trabalho de interseção entre psicanálise e educação. O alicerce fornecido por dois projetos clínicos, desenvolvidos no campo da psicanálise e inscritos no topos escolar, constatavam a possibilidade de uma interlocução com a educação. Este fato fomentou a necessidade de ampliar questões concernentes a essa interseção, que desafia a psicanálise desde seus primórdios.
Como testemunho clínico e teórico desse trabalho se organizou e publicou duas revistas de psicanálise : Brasileirinho e “a” Criança Brasileira.[2]O desafio feito à psicanálise, quanto à sua inserção no mundo para além das fronteiras dos consultórios particulares, deu origem ao depoimento dos analistas que trabalharam no projeto sob a forma de produções escritas.
Algumas questões foram levantadas a partir dos efeitos desta intervenção no espaço escolar: a questão da resistência dos professores, vinculada a fantasias acerca do que se passava entre os analistas e as crianças; a questão das crianças que se oferecem para encarnar o objeto da fantasia das mães. Esse ponto foi trabalhado por Lacan em suas “Duas notas sobre a criança” [3](1969). Tais crianças traziam à tona a real moeda em jogo na economia psíquica, individual e coletiva, qual seja: o discurso pedagógico determinando para elas o lugar de objeto não apenas na fantasia materna, mas na fantasia do adulto em geral. Outro ponto analisado foi o da impossibilidade de algumas crianças, que sofriam de maus-tratos físicos, de passarem da posição de sujeitos falados a sujeitos falantes, que poderiam denunciar as perversões de seus próprios pais. Nesses casos, a impossibilidade de falar dos segredos da família não era devida a uma fantasia inconsciente de punição, mas a uma punição real, atestando o aprisionamento dessas crianças à lei de um supereu feroz, que as tornava cúmplices do gozo de seus pais. O que chamava muita atenção era o exercício de funções substitutivas parentais, encarnadas por funcionários da creche. Estes, muitas vezes, ofereciam-se no lugar da lei, que interditava o gozo dos pais não permitindo que crianças espancadas pela família pudessem permanecer na instituição escolar. Ou mesmo envolviam-se afetivamente com as crianças e queriam protegê-las.
“A missão civilizadora”, que a educação toma como ideal, muitas vezes torna-se também impedimento para o trabalho psicanalítico, pensamos que é com esses “limites-desafios” que temos que trabalhar.
O que se pode deduzir, inicialmente, desta interseção psicanálise/educação é que a partir do desejo do analista, sujeitos do inconsciente podem ser escutados para além dos consultórios particulares. O lugar do analista não sofre modificações em sua função, já que podemos pensá-lo atópico. O que terá sua especificidade são os significantes que emergem dessa intervenção, da oferta de escuta, ou seja, do lugar de acolhimento da demanda na transferência. O trabalho psicanalítico tem efeitos de verdade, podendo revelar deformações ideológicas nas instituições e deve cuidar para não servir a tais propósitos, mantendo-se sempre em seu próprio campo de ação.
Um segundo projeto, que foi produto de uma experiência junto a profissionais da área de educação na rede pública e particular de ensino, nos municípios dos estados do RJ, SP e PR, durante os anos de 1995 a 1996, surgiu como conseqüência desses contatos com educadores, através de palestras e debates. Os inúmeros impasses levantados por eles foram coletados e divididos em categorias selecionadas pelos coordenadores do projeto[4]. Tratava-se de uma pesquisa autônoma sem nenhum vínculo institucional. Como conseqüência dessa oferta, algumas escolas vêm solicitando um trabalho de sensibilização e cursos para professores e alunos sobre os seguintes temas: fracasso escolar; educação e sexualidade; prevenção de drogas DST e AIDS; aspectos da família contemporânea, meios de comunicação e subjetividade além de outros temas.
A partir dessas práticas, e com a demanda das escolas com relação ao crescente fracasso escolar, surgiu o desejo de investigar a etiologia desses fracassos, analisando as inibições de funções cognitivas, que podem ser produto de situações que concernem à subjetividade. O fracasso escolar teria, portanto, ou o estatuto de sintoma ou de inibição de uma ou mais funções, sabendo-se que ambos interferem na aprendizagem da criança.
Os termos educação e psicanálise delimitam áreas do saber, que relacionam disciplinas voltadas para a intervenção com crianças e adolescentes, cujo desafio de lidar com essas especificidades traz ao debate o infantil, tecido da fantasia.
Dinamizar a interdisciplinaridade através das discussões teóricas e clínicas, que auxiliem na interface desses dois campos de atuação, parece ser um meio eficaz na viabilização de pensar uma educação possível e uma psicanálise no mundo. Essa articulação foi pesquisada, tendo em vista aspectos clínicos, através de estudos de casos, com o objetivo de verificar o que, na teoria, fora investigado. Partiu dos paradigmas que orientam as atuais políticas e ações educativas no universo da família contemporânea, assim como o que regula as práticas educativas escolares da atualidade, que foram submetidas a uma leitura psicanaliticamente referenciada.
Constatou-se que o fracasso escolar, em linhas gerais, é geralmente observado através das repetências e da evasão de alunos que ocorrem nas escolas, o que caracteriza uma definição através de suas conseqüências, sem buscar quais seriam propriamente suas causas. Frente às altas taxas de fracasso escolar, tenta-se localizá-lo na própria criança, deixando a problemática ser resolvida pela família e pelo profissional da saúde. Isentando-se das responsabilidades, a instituição escolar e o sistema social delegam ao profissional da saúde, e ao da saúde mental, a tarefa de resolver a questão.
Na fundamentação desse trabalho, a partir da psicanálise, enfatizou-se a articulação entre tensões que se impõem ao sujeito do inconsciente através dos processos de recalcamento e outros destinos pulsionais em conseqüência dos processos educativos.
Através do corpo teórico da psicanálise, oferecido por Freud e Lacan, trabalhou-se algumas questões da subjetividade da criança utilizando-se, também, alguns autores, da educação e da filosofia, como forma de aprofundar conhecimentos sobre o tema e poder sustentar teoricamente a hipótese da pesquisa. No campo da educação, buscou-se subsídio nas atuais políticas educacionais que incluem o fracasso escolar em seus parâmetros curriculares.
O que resultou desse desafio foi o diálogo que o autor se propos fazer entre Aristóteles, Freud e Lacan, sobre as categorias lógicas do Impossível e do Necessário e verificá-las na educação. [5]
Com Freud recortando-se um dos momentos onde trabalha o fracasso, como uma das vertentes do impossível, encontra-se seu texto “Um distúrbio de memória na Acrópole” (1936)*[6], onde relata uma situação, vivida por ele aos 48 anos numa viagem que fizera com seu irmão, como algo supostamente “impossível”. Uma conseqüente depressão apareceu diante de algo que para ele seria uma promessa de prazer. Através desse paradoxo – o fracasso aparecendo diante de uma possibilidade de sucesso – Freud extraiu questões sobre a impossibilidade de algumas pessoas vislumbrarem êxito em seus empreendimentos. Esses episódios são conseqüência de sentimentos inconscientes de culpa ou de inferioridade traduzidos muitas vezes assim: “não mereço tanta infelicidade; não mereço:” (p. 297)
O tema principal deste texto procura demonstrar que a memória de Freud rejeitou uma afirmação de seu passado e que esse pensamento tomou estatuto de impossível, aparecendo posteriormente deslocado e modificado. Um sentimento que ele chamou de “desrealização” (Entfremdungsgefühl) --- “são falhas do funcionamento” (esta palavra é comumente traduzida por “parapraxias” na Edição Standard p. 299), tem o objetivo de insistir em “manter algo fora de nós”, afastado do Eu, ou seja, recalcado. Distúrbios de memória podem, portanto, seguindo o pensamento freudiano, demonstrar conexões de uma determinada idéia com representações recalcadas, falsificando percepções atuais.
Freud levanta a hipótese de que esses mecanismos de defesa são devido a:
... “alguma coisa relacionada com as críticas da criança aos pais, com a desvalorização que tomou o lugar da supervalorização do início da infância. Parece que a essência do êxito consiste em ter realizado mais que o pai realizou, como se ainda fosse proibido ultrapassar o pai” (p. 303).
Nessa conexão com algo que se impõe como proibido, a realização de uma tarefa pode tornar-se impossível através da inibição de alguma função. Este problema levantado por Freud, toma na hipótese de M. J. Sauret (1998)[7], o seguinte estatuto: um certo fracasso escolar mantém o sujeito protegido da ameaça que o desejo dos pais pode trazer para seus filhos. Se os filhos obtêm sucesso em algum empreendimento, para quem está endereçado o resultado? Como saber se a criança está respondendo a seu próprio desejo de saber?
Diante desta situação, segundo este autor através de um relativo fracasso, o sujeito, se manteria à distância de um lugar ameaçador, que responderia ao desejo dos pais, e salvaria assim um desejo próprio.
O professor em sua relação com o aluno, poderia encarnar para este substituto parental, ao qual se dirige a demanda de amor, mas de cujo desejo precisa, muitas vezes, se defender. Como conseqüência desta tensão, a criança apresentaria dificuldades na aprendizagem, criando uma certa distância do mestre, tentando salvar seu desejo, como aponta Sauret. A inibição de uma função intelectual, manifestada através do fracasso escolar teria, para este autor, origem na problemática dos pais. Estes tenderiam a conceber o fracasso de seus filhos como deles mesmos, sentindo-se assim desvalorizados por suas notas ruins. Neste caso, poderemos apontar para a suposição de Freud (1914)[8] em “Sobre o narcisismo: uma introdução” quando afirma:
“se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos notaremos uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo que há muito abandonaram. ---” Assim eles se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho – o que uma observação sóbria não permitiria – e de ocultar todas as deficiências dele. Trata-se de “Sua Majestade o Bebê”, como outrora se imaginavam” (p. 107, 108).
Se, para Freud, a categoria do “impossível” diz respeito ao ultrapassar o pai”, todavia Lacan (1972)*[9] a define como o que é do registro Real, como o que escapa a toda definição e abordagem pelo Simbólico: – “impossível é o que não pára de não se escrever”. Lacan opõe a categoria do “impossível” à do necessário”, então definido como: “o que não pára de se escrever” (p. 198). Buscou-se localizar nessa oposição lógica: impossível/necessário a tensão freqüentemente verificada entre a educação e o sujeito do inconsciente. A inibição, nessa vertente, foi estudada como fruto de tensões que se impõem através da palavra necessária, tentando nomear o que escapa, o real impossível, o que é do estatuto do inconsciente.
Sobre a questão dos aspectos imaginários da transferência, que interferem na relação professor-aluno, ao mesmo tempo em que a promovem, analisou-se esse fenômeno, através do respaldo teórico da psicanálise, alertando para os perigos da transferência amorosa em sua outra face, o ódio, enquanto paixões humanas causando transtornos para educação.
Da pergunta:como trabalhar com o ensino na educação formal levando em conta o desejo, se este se apresenta como ineducável, tentou-se responder, na pesquisa de Mestrado,o que diz respeito às tensões entre o impossível e o necessário da educação que permeiam as subjetividades dos professores e dos alunos. Hoje se encaminha um aprofundamento da pesquisa sobre o tema “Fracasso Escolar”, no curso de Doutorado, verificando outros aspectos que geram impotência no processo ensino-aprendizagem, diante do que muitas vezes se impõe como limites da própria impossibilidade estrutural, da vida humana, em seu aspecto político e ético.
Notas
1 Psicanalista ,Doutoranda da UFRJ,professora convidada da Pós-graduação do IBMR. Texto baseado em Dissertação de Mestrado,(1999) IP ,UFRJ, orientador: professora Vera Lopes Besset.
2 Revistas editadas sob orientação do autor com textos de psicanalistas que trabalham com crianças em instituições.
3 Lacan, Jacques (1969) “Nota sobre el niño”, Barcelona – Madri, Correo del Campo Freudiano; E/Paradiso
4 Projeto Impasses na Educação coordenado pelo autor e pelo psicanalista Carlos A. Mattos Ferreira
5 Este tema foi demonstrado a partir das categorias lógicas aristotélicas em contraponto com o uso da lógica do inconsciente segundo Freud e Lacan.
6 Freud, Sigmund (1936) “Um distúrbio de Memória na Acrópole”, Rio de Janeiro, Imago Editora
7 Sauret, Marie-Jean (1998) L'enfant, L'amour, Le symptôme, Paris, inédito
8 Freud, Sigmund (1914) “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”, volume XIV, Rio de Janeiro, Imago Eitora
9 Lacan, Jacques (1972) “Mais Ainda” livros 20, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor
Bibliografia Geral
1 – Ariès, Philippe (1975) “História Social da Criança e da Família”, Rio de Janeiro, Guanabara, Editora, segunda edição (1981)
2 – Assoun, Paul Laurent (1993) “Metapsicologia Freudiana”, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor (1995)
3 – Associação Psicanalítica de Porto Alegre (1995) – “Educa-se Uma Criança?”, Artes e Ofício Editora
4 – Freud, Sigmund – “Edição Standard das Obras Psicológicas Completas”, Rio de Janeiro, Imago Editora (1969)
4.1 – “Projeto para um psicologia científica” (1895), Volume I
4.2 – “O mecanismo psíquico do esquecimento” (1898), Volume VIII
4.3 – “Lembranças encobridoras” (1899), Volume VIII
4.4 – “Três ensaios sobre a sexualidade” (1905), Volume VI
4.5 – “Delírio e sonhos na Gradiva de Jensen (1906), Volume IX
4.6 – “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância” (1909), Volume XI
4.7 – “O interesse científico da psicanálise” (1913), Volume XIII
4.8 – “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), Volume X
4.9 – “O inconsciente” (1915). Volume XIV
4.10 – “Uma criança é espancada”(1919), Volume XVII
4.11 – “Além do princípio do prazer” (1920), Volume XVIII
4.12 – “O mal-estar na civilização” (1929), Volume XXI
4.13 – “A divisão do eu no processo de defesa” (1938), Volume XXIII
4.14 – “O esboço da psicanálise” (1938), Volume XXIII
5 – Jagger, Werner (1936) “Paidéia: a formação do homem grego” São Paulo, Martins Fontes Editora (1995)
6 – Lacan, Jacques:
6.1 – “os complexos familiares” (1938), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora
6.2 – “Escritos” (1938), Versão Brasileira do Campo Freudiano, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora
6.3 – Seminários
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[1] Psicanalista ,Doutoranda da UFRJ,professora convidada da Pós-graduação do IBMR. Texto baseado em Dissertação de Mestrado,(1999) I P ,UFRJ,orientador: professora Vera Lopes Besset.
[2] Revistas editadas sob orientação do autor com textos de psicanalistas que trabalham com crianças em instituições.
[3] Lacan, Jacques (1969) “Nota sobre el niño”, Barcelona – Madri, Correo del Campo Freudiano; E/Paradiso
[4] Projeto Impasses na Educação coordenado pelo autor e pelo psicanalista Carlos A. Mattos Ferreira
[5] Este tema foi demonstrado a partir das categorias lógicas aristotélicas em contraponto com o uso da lógica do inconsciente segundo Freud e Lacan.
[6] Freud, Sigmund (1936) “Um distúrbio de Memória na Acrópole”, Rio de Janeiro, Imago Editora
[7] Sauret, Marie-Jean (1998) L'enfant, L'amour, Le symptôme, Paris, inédito
[8] Freud, Sigmund (1914) “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”, volume XIV, Rio de Janeiro, Imago Eitora
[9] Lacan, Jacques (1972) “Mais Ainda” livros 20, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor
http://www.gradiva.com.br/fescolar.htm
25/05/06